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RESCALDO 017

A 10ª edição do Festival Rescaldo destaca, uma vez mais, muito do que de melhor se fez ao longo do ano no panorama das mais aventureiras músicas nacionais.

Reforçando a sua característica ligação à Culturgest, o festival volta a ocupar, para além do Pequeno Auditório da Fundação, o seu espaço de garagem, redescoberto no ano passado enquanto palco privilegiado para testemunhar algumas das mais robustas actuações do seu programa – casos do trio pan-ritualístico Älforjs e do projecto Ondness -, e aventura-se, ainda, e pela primeira vez no seu historial, numa incursão ao carismático espaço arquitectónico e acústico do Panteão Nacional, no qual actuará, e também pela primeira vez num solo absoluto, a trompetista portuense Susana Santos Silva.

No programa, que passa em revista um ano de 2016 mais uma vez repleto de diversidade estética e de promissoras descobertas, constam, e como tem sido cunho do festival, desafios particulares lançados a autores com percursos vincadamente próprios e sem receio de arriscar saídas das suas zonas de conforto – casos do solo de piano do músico Marco Franco (até à data reconhecido pelo seu trabalho como baterista), da colaboração entre o dinamarquês Paal Nilssen-Love e o histórico David Maranha, ou da formação inédita do fulgurante guitarrista e compositor Bruno Pernadas, a procurar assumir os caminhos da improvisação livre a partir do manancial de referências que tornam a sua música uma celebrada e complexa aventura no actual panorama luso.

O experimentalismo no feminino é outras das marcas deste décimo Rescaldo: para além da supracitada Susana Santos Silva, constam do programa actuações da incontornável Ana Deus, da incisiva Jejuno e das cada vez mais únicas Pega Monstro, numa prova de que a diversidade – todo o tipo de diversidade – é cada vez mais a norma nestas músicas maravilhosamente inclassificáveis que vos convidamos a apreciar.

 


 

Sexta, 10 de Fevereiro
Pequeno Auditório

MARCO FRANCO PIANO SOLO

Marco Franco é, desde há pelo menos duas décadas, das mais destacadas figuras do jazz e da música improvisada em solo nacional. Fundou, entre muitos outros projectos, os Tim Tim por Tim Tum e os Mikado Lab, tendo mantido com Nuno Rebelo uma colaboração próxima sob a designação Pocketbook of Lightning, num trajecto que lhe tem vindo a atribuir o estatuto de um dos mais requisitados e multifacetados percussionistas da actualidade. É, ainda assim, pelo menos uma meia surpresa imaginarmo-lo num contexto solo, e em particular num instrumento que, não deixando de ser de percussão, não é de todo aquele que o notabilizou – a bateria. No Pequeno Auditório assistiremos a um momento raro, preenchido pela música de “Mudra”, editado no final do ano: uma música profundamente lírica e meditativa – uma surpresa, mesmo tendo em conta a pluralidade do percurso do seu autor.

Marco Franco – piano

BRUNO PERNADAS QUARTETO

Bruno Pernadas é um guitarrista e compositor que, com três álbuns apenas, se constituiu como referência fulgorante e incontornável no, à falta de melhor termo, pop-rock independente nacional. Capaz de um rigor composicional de tal forma plural e rico em detalhe e filigrana, e de uma organicidade que aniquila de forma total as fronteiras entre rock, pop, jazz, funk ou o que mais queiramos trazer para a conversa, a sua música faz pressentir, quase desde o primeiro contacto, um mundo ainda mais vasto de possibilidades e de lugar para a improvisação quase total.

É precisamente com base nesta premissa que este ensemble – secção rítmica (David Pires, bateria e Francisco Brito, contrabaixo), saxophone barítono / tenor (Francisco Andrade) e electrónica, em estreia absoluta no Rescaldo – se norteia, tendo como ponto de partida o reportório de originais do compositor, e procurando dar às suas ideias-base novo rumo em direcção à improvisação livre em tempo real. Um concerto que se constitui, verdadeiramente, como uma oportunidade única de aceder a uma dimensão mais de um músico já de si prodigiosamente multifacetado.

Bruno Pernadas – guitarra elétrica, orgão e sampler / Francisco Brito – contrabaixo / Luís Candeias – bateria / Francisco Andrade – saxofones

Sábado, 11 de Fevereiro
Pequeno Auditório

LUíS LOPES LOVE SONG

Não é exagero considerar a guitarra de Luís Lopes como das mais idiossincráticas vozes das franjas mais experimentais e exploratórias do jazz – quer no contexto de grupos como o Humanization 4tet, ao lado de figuras como Rodrigo Amado e os irmãos Aaron e Stefan González, ou o Lisbon Berlin Trio com Robert Landfermann e Christian Lillinger, quer, e sobretudo, nos seus dilacerantes noise solos, o músico lisboeta tem vindo a dar mostras de um estilo verdadeiramente único, onde o caos e a explosão são paradoxalmente enquadrados por um controlo e uma direcção irrepreensíveis e um foco absoluto na gestão do silêncio. É talvez a partir desta última característica que surge “Love Song” – disco lançado em 2016 e que pode, porventura, ter surpreendido os mais desatentos – autêntico enigma feérico, invulgar na sua nudez e dimensão auto-reflexiva, e magistral passo em frente no percurso do guitarrista.

ANA DEUS BRUTA

Na grande maioria dos casos conhecidos, e em particular no universo da pop, o passar dos anos sacia a sede de experimentação e a obra erigida cria uma confortável rede de segurança. Para Ana Deus, cantora sedeada no Porto a quem devemos um papel substancial nos Ban e, em particular, nos saudosos Três Tristes Tigres, a curiosidade genuína e a necessidade de arriscar parecem agudizar-se a cada novo projecto. Já tinha sido esse o caso dos Osso Vaidoso, que dava continuidade à frutuosa parceria com o guitarrista Alexandre Soares, e parece sê-lo ainda mais com este novo projecto Bruta, em que, acompanhada pelo multi-instrumentalista Nicolas Tricot se atira sem rede ao desafio de musicar a poesia de autores atormentados, loucos, deprimidos, perturbadores – como ngelo de Lima, Mário de Sá-Carneiro ou Sylvia Plath.

Ana Deus – voz / Nicolas Tricot – guitarra e baixo elétrico, banjo e teclados

Domingo, 12 de Fevereiro
Panteão Nacional

SUSANA SANTOS SILVA

Susana Santos Silva é, desde há pelo menos meia década, um caso realmente sério do jazz nacional, contando com um percurso vertiginosamente ascendente que a afirma como uma das figuras de proa do cada vez mais vivo jazz na cidade do Porto, em particular através da editora e associação Porta-Jazz, da qual é um dos fundadores, ou da Orquestra de Jazz de Matosinhos. É, no entanto, pela sua afirmação internacional (como tantas vezes sucede) que as atenções dentro de portas têm ganho maior dimensão – em particular pela sua colaboração próxima com o contrabaixista sueco Torbjorn Zetterberg ou com a prodigiosa pianista eslovena Kaja Draksler, com os quais gravou alguns dos mais belos discos em formato duo saídos do panorama europeu nos últimos anos.

Nesta esta edição do Rescaldo apresenta-se naquela que será a sua primeira actuação pública a solo, na primeira vez que o festival se desloca até ao Panteão Nacional, local cuja acústica inimitável promete constituir-se como parceiro ideal para o sopro magnético e exploratório da versátil trompetista.

Susana Santos Silva – trompete

* entrada livre mediante pagamento de ingresso no Monumento

Sexta, 17 de Fevereiro
Garagem Culturgest

LIVE LOW

A pouco e pouco – e finalmente – o vasto campo a que podemos chamar de música moderna portuguesa (quer seja pop, rock, jazz ou marcadamente experimental) tem vindo a abraçar sem complexos uma ideia de “portugalidade” que extravasa o olhar distante, irónico e inadequadamente kitsch a que as referências ao cancioneiro tradicional pareciam ser irremediavelmente condenadas. Os Live Low, notável quarteto portuense que presta um contributo mais a esta descomplexificação em curso com o seu primeiro longa-duração “Toada” (2016), levam o ouvinte numa jornada de sol a sol por um imaginário rural, contemplativo e ascético, com baixo e guitarra a pincelar ecos do bom post-rock do princípio do século (via Tortoise ou Labradford), e a voz de Ece Canli a surgir, por entre um quadro predominantemente instrumental, como um pilar extra de placidez e melodia, em particular em “Lembra-me um sonho lindo”, revisitação particularmente feliz do original de Fausto Bordalo Dias.

Ece Canli – voz / Gonçalo Duarte – guitarra elétrica / Miguel Ramos – baixo elétrico / Pedro Augusto – electronica

JEJUNO

Jejuno é o nom-de-guerre de Sara Rafael, fotógrafa e artista plástica de Lisboa que tem vindo, no último par de anos, a dar a conhecer a sua dimensão de autora sonora, inserida num universo em louvável expansão de criadoras (assim mesmo, no feminino – lembremo-nos, por exemplo, de Raw Forest, Bleid ou da compilação lançada em 2016 pela editora Labareda) que fazem dos sintetizadores digitais ou analógicos portal para uma exploração profunda de um certo psicadelismo noir tangencial às pistas de dança.

O primeiro lançamento, homónimo, de Jejuno, também no passado ano, revela uma notável condução de impulsos e estímulos, erigindo, a partir da transmutação de uma palete sonora de monocromatismos que parecem auto-impostos, peças plenas de movimentos internos, de portos de chegada e de lançamentos eléctricos rumo ao desconhecido.

Sara Rafael – eletrónicas

DAVID MARANHA + PAAL NILSSEN-LOVE

Primeiro encontro em palco de dois músicos que constituem reconhecidas referências das músicas experimentais nos seus respectivos países: Paal Nilssen-Love, dinamarquês, é um dos mais activos percussionistas do jazz livre europeu e um ponta de lança de saudáveis miscigenações entre músicos europeus e norte-americanos nos recentes anos, bem como de múltiplas dinamitações de barreiras entre estilos e abordagens (recordamos o seu trabalho frequente com artistas de linhagens bem distantes do jazz, como sejam Lasse Marhaug ou Terrie Ex).

David Maranha, por outro lado, continua a ser reverenciado como fundador dos Osso Exótico, formação pioneira na transgressão de fronteira musicais em Portugal, mas também pela constância e riqueza de um percurso de mais de duas décadas em que a sua linguagem se tem tornado a cada momento mais própria e imeditamente reconhecível, seja no seu trabalho a solo, seja nas formações que tem vindo a liderar ou nas inúmeras colaborações que tem vindo a desenvolver – algumas delas com percussionistas do calibre de Will Guthrie, Gabriel Ferrandini ou Z’ev, nas quais poderemos, talvez, encontrar pistas para o que esperar deste encontro com Nilssen-Love.

Paal Nilssen-Love – bateria / David Maranha – teclados

Sábado, 18 de Fevereiro
Garagem Culturgest

ÄLFORJS

Älforjs são um trio nascido como consequência directa da participação dos seus membros num workshop conduzido por Carla Bozulich no âmbito da edição de 2014 do OUT.FEST, que se propunha a, entre outros feitos, qualquer coisa como “destruir toda a música e conhecimento até que só reste a beleza e nela se possa desaparecer”. Se tão ambicioso objectivo foi ou não alcançado será matéria para outros textos, mas a verdade é que o aparecimento da música de Älforjs (Raphael Soares na bateria, Bernardo Álvares no contrabaixo e Mestre André nas electrónicas e saxofone) – pelo seu minimalismo processual em conjunção com uma propulsão rockeira e ritualista, pela busca e consequência de estados e momentos hipnóticos e neo-xamânicos por onde passam o jazz, o rock, a improvisação, a África mais recôndita ou o mais académico experimentalismo electro-acústico, revela sem sombra de dúvida uma energia primordial que evoca novos princípios e ausência de fronteiras. A sua actuação no Rescaldo assinala o lançamento do seu segundo trabalho de longa-
duração, “Demons 1.0”, com selo Shhpuma.

Raphael Soares – bateria, percussão / Bernardo Álvares – contrabaixo, percussão e voz / Mestre André – saxofone alto, eletrónicas, percussão e voz

ONDNESS

Do percurso de Bruno Silva, das figuras actualmente mais estabelecidas, criativas e activas na comunidade de música independente lisboeta, consta a fundação do duo Osso e uma participação reiterada no colectivo Frango, ambos bandas com papel importante no estabelecimento da riqueza dessa mesma comunidade na primeira década deste século. Ondness, o projecto que nos últimos anos mais o tem ocupado, granjeando-lhe um reconhecimento e notoriedade que o tem levado a vários cantos do mundo – quer em actuações ao vivo quer em edições discográficas – resulta de uma aprendizagem acumulada por vários anos e várias músicas e de um invulgar reconhecimento e apropriação das várias franjas da cultura popular contemporânea.

Os materiais-base que manipula em esculturas e paisagismos quase sempre de base electrónica evidenciam uma peculiar recusa de soluções e resoluções sonoras evidentes ou de metronomias certas que intriga profundamente, sendo particular testamento desta estranheza a recente revisitação que do seu espólio foi feita pelo trio de Gabriel Ferrandini, Hernani Faustino e Pedro Sousa, músicos que habitam esferas – as do jazz – aparentemente tão distantes da sua.

Bruno Silva – electrónicas

PEGA MONSTRO

Parece ainda estranhamente recente o momento em que os mais atentos se depararam com uma pequena maravilha de nome “O Juno-60 nunca teve fita”, concretizada por uma dupla de irmãs mal-saídas da adolescência, que provocou com estranhas reminiscências o sentido de surpresa que, mais de 15 anos antes, uma k7 de nome “Have you slept with your TV set”, dos saudosos Pinhead Society, havia conseguido provocar. Desde então, e passados exactamente seis anos, o nome Pega Monstro é já sinónimo de destaque inevitável em qualquer lista que se proponha exemplificar o que de mais único, mais bravo e mais vibrante se faz na música portuguesa, sendo o disco homónimo de 2012 e o espantoso Alfarroba, lançado em 2015 pela britânica Upset The Rythm, testemunhos do talento único das irmãs Júlia e Maria Reis – que continuam a cantar um português real, tão miraculosamente real como aquele que é falado, quotidianemente, por toda a sua geração, e a, sobretudo, materializar numa obra que é sonicamente directa, simples e comovente – na exacta proporção em que é subtil, complexa e excitante – o rock em estado realmente puro.

Maria Reis – guitarra elétrica / Júlia Reis – bateria

 


 

Concertos Culturgest – 21h30
Concerto Panteão – 16h30

 


 

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